Ciganos – Lâmpadas Coloridas – Parte II

Holocautos a saber.

 

Rosane Santiago Cordeiro*

 

Sérias reflexões começam a se desenvolver com relação a este tema, contradições nefastas também, tais como o movimento negacionista, por exemplo. Este assegura que o holocausto não aconteceu. “Movimento” este que deve ser temido , pois contém em suas idéias mensagens tão estúpidas quanto a própria disseminação da ideologia nazista. Houve inquestionavelmente um holocausto gravíssimo em que um exagerado número de pessoas (judeus, negros, comunistas, eslavos, russos, homossexuais, gente doente, especial) foram supliciadas e assassinadas! Aconteceu, é inegável! Aconteceu também com os ciganos!
Não falarei aqui de ciganos que tenham comportamentos ilegais ou das atitudes destes que possam constranger ou irritar a “sociedade constituída”, assim teria que falar dos não-ciganos em número infinitamente maior. Intolerância desumana entre humanos é parte do planeta Terra, infelizmente.

O holocausto que aconteceu há 70 anos, as pessoas querem esquecer escondendo ou deturpando a história que ainda nos deve muitas respostas, principalmente com relação ao povo cigano.

Quase cíclicos os holocaustos mudam de roupa, mas continuam existindo. A ignorância humana por sua vez, cresce e decresce. É só lembrar dos índios americanos praticamente devorados pelos Europeus (principalmente os Espanhóis, Ingleses e Portugueses), o próprio holocausto comunista do século XX (que poucos comentam), as ditaduras na América latina nas décadas de 70 e 80, os processos escravocratas existentes desde que se tem registro de historiografia neste mundo – onde homem subjuga ferozmente seu semelhante em proveito material próprio ou até do atual “mal-viver mundial” onde o comércio de drogas e armas financia holocaustos diários no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, Iraque, Espanha, África do Sul e quase todos os outros lugares…

É a ganância falando mais alto até do que as questões raciais, políticas e de conceitos religiosos ou culturais. Há sempre quem lucre com os holocaustos e infelizmente as pessoas não buscam fazer com que isso mude e nós estamos aí vendo tudo e fingindo não ver.

Uma vez perguntei a um senhor que fora preso político na ditadura de 70 no Brasil se ele passara por tortura. Ele calma e seriamente disse-me que não, que torturado foi quem levou choque, sofreu abuso físico, essas coisas… Ele havia “apenas” sido encarcerado, humilhado e sofrera, junto com sua família, covardias – e que isso sim, ver sua família sofrer quase o matou. Que dor me fez sentir esta frase, mas quando a recordo sinto-me mais próxima e confiante para falar do assunto a que me proponho.

A forma mais contundente de dizimar uma pessoa é destruir seus conceitos mais arraigados. Tentaram fazer isso com os ciganos, mataram , humilharam, fizeram covardias, mas não conseguiram destruir o que os fazem ser quem são, não conseguiram destruir seu senso de família e de cultura. Claramente eles podem dizer aos nazistas – “o trabalho de vocês foi em vão, os “primos” estão aí”!

Alguns deles, no Brasil, me disseram que não querem falar sobre o holocausto com medo de que esta divulgação do ocorrido venha fomentar nas pessoas de mente deturpada novas justificativas para perseguições.

No texto O DOS CIGANOS: “O OUTRO HOLOCAUSTO. O VERDADEIRO ROSTO DO RACISMO NAZISTA” de ROBERT A. GRAHAM encontra-se uma citação do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg. Para surpresa geral lê-se: “Os grupos de ataque receberam a ordem de fuzilar aos Ciganos. Não foi dada nenhuma explicação do motivo pelo qual este povo inofensivo, que no transcurso dos séculos tem presenteado ao mundo com música, canto e toda sua riqueza havia de ser perseguido como animal selvagem. Pitorescos em suas roupas e costumes, os Ciganos tem proporcionado distração e diversão à sociedade, e também a irritado com sua indolência. Mas ninguém os condenou como ameaça mortal para a sociedade organizada, ninguém afora o nacional socialismo que, pela boca de Hitler e de Heyndrich, ordenava a eliminação deste povo”.

O documento faz referência aos massacres realizados pelos Einsatzgruppen, destacamentos de grupos homicidas enviados a Polônia e a União Soviética com a missão de levar a cabo uma execução sumária dos comissários políticos, os judeus e outros sujeitos indesejáveis por sua raça como… os ciganos.

Uma questão que o autor aborda e que é bastante curiosa, até mesmo inexplicável é “como podia um grupo que havia sido reconhecido francamente pelos nazistas como de origem indogermânico, ou seja, não semita, ariano, chegar a ser tratado com a mesma força homicida, desde a esterilização até o extermínio cruel, igual que os Judeus?” (deste últimos os nazistas tinham justificativas delineadas pela proposta injustificada de eliminação de raça). Que classe de racismo então provocou tudo isso com os ciganos? Qual era o embasamento real, moral e por obra de quem?

Narra ainda Graham “… antes que estivessem funcionando os campos de extermínio, o Tribunal, a parecer, não sabia nada no que concerne à situação dos Ciganos. O silêncio dos Ciganos persistiu muito tempo depois de que fora possível ao mundo inteirar-se dos segredos de Auschwitz.

Esta é uma grave lacuna na história da Segunda Guerra Mundial. Só no último decênio a literatura se enriqueceu com estudos e recordações pessoais de sobreviventes que decidiram que tinha chegado o momento de falar. Seus relatórios, desafortunadamente, foram publicados em pequenas revistas e boletins de difícil acesso. Fica ainda muito por fazer para que a sorte dos Ciganos no contexto da política racista do nazismo adquira toda claridade a que estes têm direito” .

Voltando aos nossos tempos, vamos ao ano de 2008, Itália, Governo Berlusconi, o que acontece? Perseguição ou Política Italiana de Imigração?

É o nome que se dá à política que elegeu Silvio Berlusconi na Itália. E se este discurso o elegeu é porque faz eco nos desejos da população. Vamos lembrar aos italianos: o Brasil é um país que recebeu e recebe muitos imigrantes italianos e por mais que estes tenham sido espoliados durante certo tempo histórico, isso é inegável, nossa nação lhes deu condições e oportunidades de crescimento. A megametrópole São Paulo é o que é, principalmente, pela atuação dos imigrantes do mundo inteiro que aqui recebemos. A língua portuguesa falada pelo paulistano é claramente agraciada por uma entonação que se percebe ao primeiro som:italiana. A cultura destes está arraigada à nossa e somos o que somos pela mistura étnica e cultural existente e permitida aqui.

Política Italiana de Imigração! Política feita pensando em quem? Paliativa, reparadora ou destruidora? Algumas atitudes do passado, infelizmente, já voltam a acontecer hoje – como a atitude do governo italiano de fichar os ciganos em documentos que contenham a impressão digital***. Sabe-se que isso acontece com quem tem dívidas com a polícia… Que direito tem qualquer governo de colocar toda uma cultura, um povo, num mesmo caldeirão e taxá-los de “diferentes”? As ações sociais destes governos para com estes seres humanos são justas diante da realidade cultural deles? Que dêem condições reais e acrescentem à forma de viver destas pessoas cidadania! Atitude política modificadora!

Por que alijar-los de qualquer processo de melhoria social? Por que a ideia de extirpar-los (novamente) da sociedade? É mais fácil do que pensar realmente nas razões primeiras do problema social que os ciganos e outras “minorias” sofrem e/ou acarretam. Então lhes estigmatizam, com um carimbo bem grande que os denomina, a todos, de marginais.

É mais do que notório que os bandidos mesmo estão nas grandes corporações, nos congressos da maioria dos países, na máfia, na concepção (o nascedouro) da indústria das drogas e de armas. Ladrões estão manipulando o mercado financeiro, levando propina em negociações com dinheiro público, destruindo florestas, fazendo tráfico de órgãos, matando gente em massa por cobiça ao petróleo e outras riquezas naturais.

Mas quem são os alvos das perseguições para “limpeza”? São as pessoas que têm a porta fechada na cara quando procuram emprego, mesmo tendo qualificação para o cargo, que têm que esconder seu passado, que não conseguem se matricular em uma universidade, que têm que aceitar “ajuda” de ONGs aproveitadoras e Governos corruptos para poderem subsistir…

Em quem estes vão se transformar? Quem vão ser? E ainda têm de ouvir que mesmo com “oportunidades”, estes não se adaptam. Mas como adaptar-se a um mundo que é pior que o deles? Como largar para trás as tradições? Como dividi-las com gente que não os respeita? Para quê? Para na primeira crise financeira serem os culpados do roubo, mesmo quando é um não cigano que o tenha cometido? Ver as mentiras serem engendradas pelos bandidos de verdade? Ou ver seus acampamentos e residências completamente queimados e a “coisa” ficar por isso mesmo?

Mesmo com o radicalismo de preservação das tradições, que vejo nos ciganos brasileiros, a cultura deste povo está desaparecendo, ou pelo menos se modificando. A “caça aos imigrantes”, vivida em alguns países, vem de uma crise social imensa, causada por um único fator, a falta de autoridade política dos governantes (autoridade real, não a que a mídia oficial propaga) e de um descrédito imenso das instituições (sistemas financeiros, governos, partidos políticos, Justiça, ONGs…). O problema social que acontece não vai ser solucionado se for contornado, vigiado ou “eliminado”.

*** O governo italiano atual está fichando os ciganos e imigrantes em documentos que contenham suas impressões digitais e foto – em 1922 (e durante a década de 1920) – todos os Ciganos em territórios alemães deveriam ser fotografados e tiradas suas impressões digitais.