Ciganos – Lâmpadas Coloridas – Parte III.

A ignorância e a política feita

pelo e para o poder

vai continuar a propagar a xenofobia!

 

Rosane Santiago Cordeiro*

 

 

No caso dos ciganos na Europa, os centros de apoio e de ajuda social, eu conheci alguns, parecem se aproveitar de algumas características culturais deste povo para marginalizá-los cada vez mais. Alguns trabalhadores sociais até tentam fazer alguma coisa positiva, mas se vêem limitados pelo “status quo” vigente e pela própria ignorância em relação à população com quem procuram desenvolver atividades sociais e de trabalho. Acabam tornando- se destruidores e são olhados por estas comunidades ciganas como gente completamente fora do contexto, mas que podem dar-lhes alguma coisa que o governo constituído não consegue – quase sempre na forma de esmola.

Vemos também uma indústria de Organizações Não Governamentais que são cabides de emprego e que literalmente dão restos de seus lucros aos ajudados sem olhar de verdade para a realidade destes. No fundo os “benfeitores”, não querem modificar NADA, cultivam sempre aquele olhar de cima para baixo, conservador da desesperança que é o que justifica seus empregos. Prova disso é que as ONGs, em sua grande maioria, não estão onde seus estatutos e filosofias lhes levariam se fossem honestas. O discurso real é: Somos bons. Somos alternativas para o desgoverno, gostamos dos miseráveis, pobre é lindo, ensina a gente, nos faz sentir como somos verdadeiramente… Melhores! Fazem a parte deles.

Que ajuda é essa? Criar banheiros públicos para os ciganos na Espanha? Pagar um soldo para cada filho que eles tenham? Criar programas escolares segregacionistas? As instituições sociais não governamentais tornam-se paliativos efêmeros à fome, à falta de trabalho, de respeito e de justiça. Se estes organismos (que são muitos) trabalham realmente no que se propõe, porque não há uma mudança estrutural e efetiva destes povos? São às vezes 40 ONGs atuando em apenas um bairro marginal, há mais de 20, 30 anos e não modificaram nada! Quantas destas realmente funcionam?

Infelizmente a ignorância e a política feita pelo e para o poder vai continuar a propagar a xenofobia, os holocaustos, a destruição do meio ambiente e, se me permite ser irônica, o grande malfeitor de tudo isso, a pobreza – ou melhor, o pobre! O recado é para Italiano ouvir, mas também para espanhóis, suíços, estadunidenses, angolanos, brasileiros…

A discussão tem de ser levantada de uma maneira a argüir o que é a União Européia e qual o significado desta? Como o povo em geral pode usufruir das benesses de fazer parte de um continente que se propôs um dia a ser igualitário?

Devemos ser agentes transformadores e ver o que estas minorias culturais podem acrescentar à sociedade em geral. Defendo a qualidade de vida do cidadão das cidades que estão passando por problemas de relacionamentos sociais e culturais e creio que com a crise econômica mundial estes conflitos serão, infelizmente, cada vez mais arraigados no cotidiano europeu, mas a política é feita por nós e não é a repressão que vai transformar a forma de viver de um ou outro, mas a vontade de ser cidadão. Todos querem viver em paz, sem assaltos ou diferenças sociais, no Rio de Janeiro ou em Nápoles, mas só conseguiremos restringir às diferenças começando por nossa própria vida. É o indivíduo que modifica o todo. Só existe roubo, porque alguém compra o produto roubado, só existe traficante, porque existe quem consome a droga, só existe corrupto porque há o corruptor.

Vejo que os “errantes” das ruas históricas européias em muitas vezes não têm mais nada a perder. Dizem que há um mercado comum europeu, mas será que um imigrante Croata, que teve toda família dizimada na guerra entre Sérvios e Croatas, suas irmãs e mulheres violentadas pode ser exigido da mesma maneira que outros cidadãos? Que tem esse ser a perder e o que pode ganhar na situação em que se encontra?

Conversei com um deles, o homem não conseguiu me responder quando perguntei-lhe de sua família, emudeceu, apenas algumas lágrimas caíam de seus olhos castanhos no paletó sujo de mendigo. Este homem não é cigano! Mas em qualquer lugar aonde vá pode ser confundido com um deles, assim como eu também o fui por minha aparência física. De outra vez que o encontrei , descobri que é do leste Europeu, é poeta, não me reconheceu… Pediu-me dinheiro e foi-se. Esquecera-me ou não queria mais chorar.

Falo deste “mendigo”, pois há uma generalização de que qualquer pessoa que erre pelas ruas de países europeus ou é cigano ou marroquino. Ambos tidos como perigosos para o resto da população. Um amigo que vive em Udine, Itália, contou-me de matérias que saem nos jornais de lá com fortíssimo cunho racista, como: “Um homem e dois marroquinos brigavam hoje na rua tal “… Bem, o que são os marroquinos senão homens?

A causa migratória é um problema para a sociedade italiana. Problema agravado com as medidas adotadas pelo primeiro ministro Silvio Berlusconi. A decisão de converter a imigração irregular em crime não é a única medida adotada pelo governo italiano. Com a nova lei, os imigrantes sem documentos que cometerem um delito terão a pena aumentada em um terço; os prefeitos terão mais poder para expulsar os imigrantes que estejam em situação irregular, procedentes ou não de países da União Européia; serão dificultados os processos de reunião familiar, que estarão limitados aos casos de pais e filhos que demonstrem seu parentesco com um exame de DNA****; os imigrantes terão que comprovar moradia, rendimentos suficientes e seguro médico, e se ampliará o prazo máximo de retenção de imigrantes em centros de internação para 18 meses, dentre outras “leis” que não estão sendo pensadas para serem feitas… Se lermos com atenção estas poucas linhas, identificaremos nas ações do Governo Berlusconi mais do que o propósito de atingir ao imigrante, ele atinge sensivelmente e diretamente aos zíngaros (ciganos)! E não dá para esconder isso!

Esta política não é aceita por grande parte da população italiana, mas o primeiro ministro teve muitos votos na última eleição por conta deste discurso de limpeza imigratória, que em outros tempos seria chamada de limpeza étnica (hoje deve ser politicamente incorreto isso). É esta a
política que pode dar resultados e segurança aos italianos?

E o quê falar da Máfia italiana, que especula o comércio imobiliário e instiga claramente a xenofobia? Perdoem-me, mas nunca tive notícias de que as famílias mafiosas fossem ciganas e sim que são verdadeiramente italianas. Todos estes fatores e um governo mais do que corrupto, ocasionam a falência do sistema e faz com que o povo italiano sofra por tudo, mas principalmente, pela própria ignorância. Poderia me alongar aqui nas inteligentes e espúrias negociações de votos do governo italiano, que utiliza de manobra política espúria com imigrantes que vivem fora do país e descendentes de italianos. Manipulação de votos que leva a imprensa a falar de ligações com a máfia e participação de consulados (vide links para jornais que tratam do assunto abaixo*****).

Hoje
**** O governo italiano atual (texto de 2008) diz que serão dificultados os processos de reunião familiar, que estarão limitados aos casos de pais e filhos que demonstrem seu parentesco com exame de DNA /

Época de Hitler:Em 31 de julho de 1941, Himmler publicou alguns dias depois seus critérios para a evolução biológica e racial – foi determinado que a origem de família de cada ROM havia de ser investigada remontando-se a três gerações passadas.

***** jornais que explicam a situação atual de manipulação política do imigrante fora e dentro da Itália :

presunti-brogli-elettorali-nel-voto-degli-italiani

http://www.repubblica.it/2008/03/sezioni/cronaca/ndrangheta-1/voti-estero/voti-estero.html

Eleicoes-Camorra-a-desgraca-italiana-em-accao-em-Napoles