Um Filme, uma História.

 

 

“A utopia está lá no horizonte.
 
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
 
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
 
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
 
Para que serve a utopia?
 
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

                                                                                           Eduardo Galeano

 

Vestida de Sonhos

 

 

 

O filme é uma "viagem quase psicodélica" pelo tempo, através da história da política ativista, filosofa e bailarina Estrela Bohadana.

 

A linguagem utilizada neste filme é de Docudrama. Em flash backs sem sincronismo, o trabalho de roteiro "artesanal" mostra 45 anos de vida brasileira - um dia, o próximo dia, dez anos depois, dois anos antes e volta para o dia anterior, seguindo assim várias fases da vida de Estrela Bohadana e da política no Brasil. O filme é uma aventura que pretende fixar o espectador na tela. Em alguns momentos temos a impressão de que alguém está no futuro (câmera subjetiva) captando as ações ficcionais com um celular (como se estivesse ali filmando e enviando  imagens em streaming  para outro tempo ) - o que nos dá a oportunidade de levar a narração para um público atemporal.  

Usando essa linguagem desconexa em "Vestida de Sonhos", apresentamos fatos importantes acontecidos em fases variadas, baseados na vivência de Estrela e nas entrevistas e pesquisas de Rosane, pois o que sustenta este enredo é a amizade dessas duas mulheres, uma que cresce durante esse tempo e outra que amadurece.

As ações acontecem em Volta Redonda (lê-se também Barra Mansa - onde ficava o BIB), Rio de Janeiro, São Paulo e Belém do Pará. Além de cenas captadas na Espanha.

 

"Quando, há 42 anos, eu saí da prisão, prometi a mim mesmo que nunca faria um pacto com o silêncio".

                                                                                                                                          Estrela Bohadana

                           

 

 

Rosane é natural de Volta Redonda, interior do Rio de Janeiro, onde grande parte da história acontece. A jornalista entra no filme criança, quando Estrela é presa na cidade e levada para Barra Mansa. Rosane narra, como contadora de história, os momentos ficcionais (onde usaremos atores) e com registros, entrevistas e imagens históricas e de arquivo (documentário). A narração mostra os "encontros" desta com Estrella, para o efetivo encontro real - o primeiro, com apresentação, nome e sobrenome em 2007, quando Estrella a entrevistou para uma rádio.

 

Ex de cena:

Lanchonete dos anos 70- Av. Amaral Peixoto - Volta Redonda - Dia -

(Estrella com dezenove anos, Rosane criança -menina morena clara com cabelos curtos, estilo Elis Regina, vestida com roupa de crochê branca, todos bem anos 70. Junto, um menino moreno, mãe de Rosane jovem com uma menina bebê no colo.)

Menininha de 4 anos, acompanhada pela mãe e irmão, olha para Estrella que espera seus amigos para uma reunião clandestina nesta lanchonete - a menina busca ler o nome de tudo na lanchonete (Coca Cola, Promoção, pastel, Bala, Chocolate), Fala bastante. Estrella (atriz que a interpreta) vê um soldado do exército passar, nervosa - disfarça e olha a menininha fixamente como se a conhecesse, como se estivesse com ela. Menina diz - Viu? Eu sei ler.  Mãe da Menina, com um bebê não colo, constrangida ri. Estrela, aproxima a menina de seu corpo, soldado atravessa a rua. Estrela relaxa, abraça a menininha olha a mãe (que consente o abraço) e sorri. Estrella: - É? Quem te ensinou?  Mãe responde - ela aprendeu sozinha, mas esse ano vai a escola, estamos comprando o material, né Rosane? Menina dá pulinhos. Estrella a olha e diz: Se algum dia eu tiver uma filha quero que ela seja igual a você! (Essa cena não aconteceu verdadeiramente, ou melhor aconteceu 35 anos depois, mas é uma das linguagens de ligação entre as duas amigas, Rosane e Estrela)

Uma ficção, com cenas interpretadas que quebrarão o peso de assuntos como tortura, perseguição, corrupção e política. É este entrelaçar de realidades que remete o público às circunstâncias complicadas da vida do país na época e hoje. Servem também de link para os depoimentos e entrevistas com personagens importantes que mostram momentos sérios da história do país. Essas  cenas interpretadas quebrarão o peso de assuntos como tortura, perseguição, corrupção e política. 

Nessa "viagem" aparecem ainda o depoimento de Estrela na Comissão da Verdade em Volta Redonda e em Brasília, histórias de solidariedade na prisão e no manicômio, a vida salva por uma outra chamada Dilma Roussef, o nascimento dos filhos, a relação conturbada com mãe, os Amigos e os relacionamentos amorosos, a luta contra o câncer. Enfim, a história de uma mulher valente e digna, uma subversiva em um Estado de Exceção, que sofreu como mais infames torturas para não desistir de seus ideais e nem entregar seus amigos de luta, mesmo que estes a tivessem entregue.

 

"Tínhamos um Compromisso em que o padre Natanael,

ele encampou muito bem, nos apoiou, ele e Dom Waldyr foram presentes o tempo todo. 

Nesse ponto, nós tínhamos um respaldo importante. 

A JOC significava Dom Waldyr, Padre Natanael.

A Igreja, o que nos fortalecia muito ".

          Estrella Bohadana - para a Comissão da Verdade - Volta Redonda - 2014.

 

Além de Estrella, temos dois personagens importantes neste filme: o Bispo Dom Waldir,  herói brasileiro que ficou conhecido por seu engajamento nas lutas sociais em favor dos menos favorecidos, como o movimento dos posseiros e o movimento sindical e que  jamais negou abrigo e apoio a todos os perseguidos políticos que buscaram sua ajuda e  René  Armand Dreifuss, um dos mais brilhantes cientistas políticos do Brasil, que morreu de câncer em 2003 sob os cuidados e solidariedade explícita de sua esposa Estrella Bohadana. Através das obras de René teremos o respaldo político-científico desta narrativa..

Mostramos cinco décadas de política, movimentos sindicais, guerrilha, heroísmo, integridade, o amor da Estrela pelo Brasil e pela Espanha e a lúdica e difícil superação das mazelas da tortura física pela dança.

Viajamos pelas artes, por este explodir da MPB, por embriões nos movimentos culturais, por nossos esportes, pelas revoluções que aconteceram pelo mundo, pela anistia, pelo recomeço de um Brasil democrático, a campanha pelas eleições diretas, a morte dos operários Volta Redonda, o início das privatizações no Brasil, os questionamentos da professora universitária e a transformação na vida de seus alunos e amigos - uma mostra de lições de amor inexplicáveis ao ser humano normal, mas compreendida e vivida por Estrella.

Pautamos o roteiro em cima da complexidade da vida da filósofa, no que a filosofia tem de mais fantástico, o fazer pensar. O amor pelos homens que passaram por sua vida, a busca pela arte e o apoio e paixão de seu último companheiro Luis Zorraquino, um espanhol que sempre sonhou com uma guerrilheira.

"No fundo existe uma banalização da violência,

Uma banalização da própria tortura que faz com que a gente diga:

"Não, na argentina que foi complicado porque teve 30 mil,

No Brasil teve tanto 5 ",  isso não se quantifica, se fosse

Um é um problema,  um é um crime contra uma humanidade,

Então,  eu acho que essa banalização é tão violenta. "

                                                                                            Estrella Bohadana

 

Os relacionamentos familiares e pessoais, a sensação de abandono durante a tortura, o abuso e desrespeito de seus algozes por ser verem nela uma subversiva e ainda mais judia. A política feita por Dom Waldyr Calheiros, que sabia que haviam pessoas sofrendo em seu nome (e que as torturas mais pesadas se passaram com Estrela e outras pessoas, como o padre Natanael, pois os militares não conseguiam "pegá-lo", mas torturando aquelas pessoas as  dores iriam direto ao coração do Bispo Vermelho). Entrevistaremos gente que conviveu com Estrela durante a ditadura, anônimos e humildes responsáveis ​​pela democracia neste país.

“Quem vai para a delegacia?” “É pobre!” “Tudo o que fazem lá com ele (com o pobre)

é justificado, porque ele fez isso, aquilo e aquilo outro…

Aí aparecem pessoas delatando a vida do povo,

testemunhas às vezes falsas. Acho que é indecente por parte

daqueles que se aproveitam disso.”

Dom Waldyr Calheiros em entrevista concedida em 2012 a Ana Helena Tavares.

 

Essa é a vida de Estrela Bohadana em quase cinco décadas de política brasileira, uma trajetória que nos alerta para as ações recorrentes e repetitivas no Brasil que aviltam nossa democracia e destroem os direitos de nosso povo, nossos direitos humanos*.

A história pára em 2015, depois do falecimento de Estrela, um pouco antes do Impeachment de Dilma Roussef. Poderíamos com este trabalho avançar sobre um debate à política atual, mas vimos que é muito mais fácil mostrar o que aconteceu em um momento ainda próximo para que todos possamos ver o que não devemos deixar acontecer em nossa economia, política, cultura, artes, intelectualidade , tecnologia, no cotidiano dos mais simples e dos que têm fé na vida.

Somos Brasileiros. Ainda estamos vestidos de sonhos.

 

 

  • Direitos Humanos: São direitos civis e políticos (exemplos: direitos à vida, à propriedade privada, liberdade de pensamento, de expressão, de crença, igualdade formal, ou seja , de todos perante a lei, direitos à nacionalidade, de participar do governo do seu Estado, podendo votar e ser votado, entre outros, fundamentados no valor a liberdade); direitos econômicos , sociais e culturais (exemplos: direitos ao trabalho, à educação, à saúde, à previdência social, à moradia, à distribuição de renda , entre outros, fundamentados na igualdade de  oportunidades);  direitos difusos e coletivos (exemplos: direito a paz, direito ao progresso, autodeterminação dos povos, direito ambiental, direitos do consumidor, inclusão digital, entre outros, fundamentados no valor da fraternidade).